Você foi e eu fiquei

Estarrecido, paralisado

pela doença que te levou

Você foi e eu fiquei

mas parece que ainda estamos

lado a lado

Você foi mesmo?

não creio

 

E até hoje fico assim, meio

soterrado

parado 

estagnado

enterrado ao teu lado

 

Toco na raiz

da morte

que se nutre de húmus

E quando menos espero

algo me puxa para cima 

é um broto de vida 

que procura luz

Você morreu

Como eu não percebi

você definhando

e eu, com coisas vis

me preocupando

 

Tudo é sem relevo

quando um amado morre

Me tornei só peso

Na vida disforme

 

É injusto ir embora

num destino cediço

Não era tua hora!

 

E quem cuida disso??

Impotente agora

estou submisso

A morte beija o rosto

Quando a morte me beijou o rosto

Eu finalmente beijei a vida

Tal qual Judas com remorso

pois viveu de forma traída

 

Estudei pra me gabar

Trabalhei para ganhar

Casei sem nem amar

Pari sem querer cuidar

 

Vida rica de esnobar

vantagens esmolar

e vem a morte imolar

 

Isso – absurdo! – me dá paz

Mata o desamor sagaz

Depois de tanto me enganar

Vida e morte

Faz dois anos, perdi uma perna num acidente de carro e tive complicações durante os seis meses que fiquei no hospital. Durante esse período, me transformei completamente, os músculos atrofiaram, desapareceu totalmente meu sex appeal – para mim, essa foi a pior coisa que aconteceu naquele momento.

Finalmente saí do hospital e depois de dois meses, o câncer havia consumido metade do meu fígado. Mais uma cirurgia, longo tempo no hospital. Confesso que eu já estava cansado de viver, mas fiquei feliz quando recebi alta, mesmo com o tratamento contínuo.

Depois, veio a Covid. Eu já havia passado por muitos tratamentos… mas a Covid me sufocava de uma maneira desesperadora. Fui entubado e – nem acredito – sobrevivi. Mas ainda vivo com constante falta de ar e fraqueza, faz dois meses.

Essa semana fiz novos exames, e hoje pela manhã os médicos me disseram que eu não farei mais cirurgias, que eu tenho menos de dois meses de vida e que meu fim vai ser sofrido, infelizmente.

Mas me deram um alento: eu posso pedir desde já a eutanásia. Se eu preferir esperar, posso pedir depois, quando a dor aumentar muito. Se eu quiser ainda essa semana, preciso confirmar até amanhã, pois eles precisam agendar horário para o procedimento. 

Meu mundo terminou de cair. Mas a ideia é tentadora. Junto com meu corpo, minha vida também se despedaçou. Dou-me conta do quanto fui ingênuo quando acreditei que seria recompensado por ser bom, ou castigado por ser ruim. Não tem nada a ver, tem um monte de gente ruim sortuda, e gente boa se dando mal. Minha família cuida de mim, mas sei que sou um peso. Sofrem por mim, mas sei que sofrem mais por ter que cuidar de mim. As pessoas me olham com pena ou repugnância. E o Deus amoroso, cadê? Nem o velho barbudo vingativo não existe, não existe nada disso. Se eu não sentisse alguma dor, eu diria que nem eu existo, às vezes penso que sou uma ilusão, preso numa matrix. Hoje não quero mais pensar em nada, estou exausto.

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Instantes depois, uma mulher alta, jovem e bonita chegou bem perto do seu rosto e disse: vem comigo. Ele não teve escolha, saiu caminhando atrás da mulher. Ela o levou por um corredor branco, depois entraram em um quarto branco no qual havia uma cama, com várias pessoas ao redor de uma maca. Chegou mais perto e viu um corpo sendo retalhado. Quando se aproximou, viu o seu próprio corpo sendo cortado. E ele ali do lado, olhando… mas não tinha nenhuma dor. Pelo contrário, sentia-se completamente leve e com uma alegria transbordante. Paradoxalmente, sentiu-se mais vivo do que nunca.

Acordou renovado, com uma irracional, inexplicável e inabalável paz e confiança no futuro.

Lembrou da oferta da eutanásia. Ligou para o hospital e disse: “Com corpo ou sem corpo, escolho a vida”.