Café

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Isso não é uma poesia

é uma homenagem

ao pó da torra e moagem

com água quente em cima

 

É um prazer sinestésico

me enterro nessa nuvem

nesse vapor angélico

de onde o sabor de casa vem

Lugar de neve

Imagem de jplenio por Pixabay

A luz difusa divisa

a estrada perfeita e lisa

gelada, linda e vazia

sem gente, festa ou alegria

 

Posso contribuir com isso?

Trazendo algum rebuliço?

estará mais frio em breve

O lindo país de neve

 

Quem sabe em breve apareça

um calor existencial 

quando meu sol tropical

meu coração aqueça 

Artista

Imagem de Gregory Akinlotan por Pixabay

O artista

segue a pista

sobe no palco

adiante, arrisca

de carro ou a pé

segue o asfalto

cego de fé

no futuro

 

Faz breve parada

numa encruzilhada 

só para pensar 

e já retomar

a longa estrada

que trilha sozinho

 

Vira-se e dá uma olhada

toda a gente encantada

Sorri e não leva nada

dá adeus e segue a jornada

Dentista

Dental doctor photo created by prostooleh – www.freepik.com

Quanta precisão e atenção precisa

para ajudar o criador da vida

a criar mais e mais perfeição

 

Sua mão,

atleta treinada

ginasta forte

não treme por nada

não conta com a sorte

Segue método e procedimento

e faz criar arte a cada momento

 

Restaura, reconstrói, 

protege onde dói

compartilha seu talento

para tirar a dor e o sofrimento

 

Mãos e equipamentos 

com força e leveza

criam encantamentos

autoestima e beleza

Envelhecendo

Anciano caminando, imagem de zamfer55, por Reshot.com

O corpo está envelhecendo

Sempre se desenvolvendo

Como o cego, mesmo não vendo 

ouve melhor que ninguém

 

Se a idade confunde a razão

Simplesmente presto atenção 

naquela velha consciência

Que só vem com a vivência

 

Se a consciência tá perdida

O instinto ainda persiste

E se nada mais existe

tenho ainda esta vida

 

E agora percebo

Que sempre foi tudo que tive.

Mudança de corpo

Aquela senhora havia feito dezenas de plásticas no ano anterior. Durante uma vida toda teve um corpo desgrenhado, pois se estressou tanto com tudo que nem conseguiu olhar para o próprio corpo. Acumulou peles e pelancas, cabelos arrepiados e quebradiços, até o rosto ficou disforme. De repente, de uma hora para outra, começou a fazer muitas cirurgias plásticas. Recortou e reformou todo o corpo, tratou o cabelo. Estava irreconhecível, bonita, modernizada. 

Os cortes mais recentes ainda estavam cicatrizando quando anunciou algo que ninguém havia acreditado num primeiro momento: faria uma das mais recentes técnicas que a medicina, a física quântica e a energia nuclear haviam permitido ao ser humano desenvolver: a migração de corpo. 

Funciona assim – dizem que já há casos bem sucedidos – a pessoa sai do seu corpo e passa a habitar noutro corpo, de alguém que morreu recentemente. Entre seres humanos era relativamente fácil, mas também era possível com animais. E essa senhora havia decidido viver num corpo de galinha.

E o pior: o procedimento era irreversível. Ou seja, ela estava definitivamente descartando seu corpo para virar um frango.

Imagem de Pexels por Pixabay.

Ela pediu ao filho para levá-la até a clínica para fazer o procedimento. O rapaz sentia um misto de inconformidade e resignação. Resignou-se simplesmente por não poder fazer nada, tentou falar, argumentar, explicar, convencer… não importava o que ele falasse, sua mãe simplesmente não lhe dava ouvidos. Ele dizia que era o sonho dela, de que ela estava feliz…

Eu, amiga próxima da família, fui até a clínica para fazer companhia à senhora e ao filho. Tomei a liberdade de perguntar a ela porque ela escolheu uma galinha. Ela explicou que sempre gostou de galinhas e queria saber como é se sentir uma galinha. Ela falava feliz, olhando ao longe, como se enxergasse, acima e além da linha do horizonte, um outro mundo que nós não conseguimos acessar. Imaginei inicialmente que ficaríamos conversando para o tempo passar mais rápido, mas dito isso, um silêncio mortal se impôs.

Eu me perguntava se ela havia se dado conta de que não poderia mais falar, nunca mais se sentaria à mesa para uma refeição, começaria a comer insetos e minhocas, de que faria cocô por todos os lados… quem iria limpar? Ela iria viver em casa ou teriam que construir um galinheiro? 

O filho educadamente me informou, ainda que transparecendo vergonha e revolta, que eu poderia saber tudo sobre o andamento do procedimento pelos maiores sites de notícias e também pelo site da Sociedade Internacional de Pesquisas Médicas sobre Migração Corpórea.

Então chegou uma profissional para nos atender. Ela explicou que a migração demora alguns dias, que a senhora teria de ficar internada e seria monitorada dia e noite por sofisticada aparelhagem e dois profissionais especializadíssimos. Esse monitoramento tem dois objetivos: aumentar a segurança para a senhora e também registrar detalhadamente todo o processo para subsidiar novos estudos. A profissional explicou que aos poucos, ela passaria a sentir partes do seu corpo como uma galinha: sentiria um grande bico no rosto, perceberia o corpo mudando de forma e, por fim, sentiria vontade de bater asas. Os olhos da senhora brilhavam. Mas a moça explicou que existe algum risco de não funcionar, podem ocorrer idas e vindas, por exemplo, o procedimento poderia bloquear no finalzinho e, por algum motivo, ser necessário recomeçar. Existia ainda o risco de não ser possível finalizar e, nesse caso, se tudo desse certo, ela conseguiria voltar totalmente para o corpo antigo e seguir sua vida como antes. Ela afirmou que a equipe estava confiante que seria um sucesso e então, em três dias, a senhora teria o corpo do belo animal de seus sonhos. E, na pior das hipóteses, em no máximo uma semana a situação se resolveria.

O filho ouvia tudo em silêncio, imóvel, sem esboçar emoção – não esboçava nem sinal de vida, para falar a verdade. Ele estava morrendo por dentro.

Eu tinha mil perguntas, mas não me atrevi a fazer nenhuma. De repente, para mim, estava tudo tragicamente claro.

Oposição de ideologias

Depois de alguns anos, visitei a república onde morei quando era estudante. Será que ainda havia algum conhecido morando lá, ou todos já teriam concluído seus cursos?

Logo na entrada algo estava diferente. No amplo hall da casa, com pé direito alto e iluminação limitada por pequenas janelas antigas,  vi dois cartazes, um de cada lado do hall, o mais distantes possível um do outro. Num estava escrito: “precisamos das chaves e não podemos pagar”, e do outro lado, o cartaz dizia: “é injusto uns pagarem por todos”.

Enquanto eu estava parada, chegou um rapaz.

– Oi, tudo bem?

– Oi, eu disse. Eu morei aqui há alguns anos, vim visitar.

– Legal, fique à vontade, se precisar de alguma coisa é só falar. 

– Pode me explicar o que são esses cartazes?

– Ah, é a nova forma de fazer assembleias. 

Lembro de quando fazíamos assembleias, todos os moradores reunidos ali no hall, nas escadas, com inscrição para falar em ordem organizada e votação ao final.

– Como assim, cadê a assembleia?

– É que o pessoal evita se reunir porque sempre dá briga. A república está dividida, uns são totalmente miseráveis e outros são pobres. Mas os pobres conseguem se alimentar bem e sobram uns centavos no final do mês. Acontece que semana passada a fechadura da entrada estragou e tivemos de trocar a chave. Cada morador precisa de uma cópia nova, mas não temos dinheiro para fazer as cópias. Daí o grupo dos miseráveis, que chama o outro grupo de “rico”, exige que este pague as cópias de todos.

– Mas não daria para deixar sempre uma chave em casa e qualquer morador que estiver em casa abre a porta para os outros? 

– Não dá, os dois grupos não se falam, ninguém de um grupo abriria a porta para alguém do outro.

– Ah… e você de qual grupo é?

– Nenhum dos dois. Na realidade sou igual a todos, todo mundo aqui está na mesma, só eles que não veem isso. Eu entro quieto e saio calado…

– Mas você tem chave?

– Não, eu passo pela janela da cozinha, que não tem tranca.